
Moçambique está entre os países africanos mais afectados pela nova política de ajuda externa dos Estados Unidos, após a administração de Donald Trump reformular os programas de assistência internacional e exigir que os países beneficiários assumam maior responsabilidade no financiamento dos seus sistemas de saúde.
A mudança surge num momento delicado para o país, particularmente nas zonas afectadas por cheias e doenças endémicas. Em Matola, província de Maputo, unidades sanitárias continuam a enfrentar dificuldades no combate à malária, cólera, HIV/SIDA e tuberculose, agravadas pela redução da ajuda internacional e pela falta de recursos humanos.
No Centro de Saúde da Matola II, profissionais relatam dificuldades para restabelecer serviços interrompidos após as inundações e os cortes de financiamento ocorridos no ano passado.
“Já estávamos com dificuldades antes das inundações. Agora estamos tentando retomar os serviços com menos gente e mais pacientes”, afirmou Alarico Moisés Manjacaze, director da unidade sanitária.
Segundo a Bloomberg, a nova estratégia norte-americana substitui o antigo modelo liderado pela USAID por acordos bilaterais mais restritivos, exigindo que países como Moçambique aumentem significativamente o financiamento interno da saúde pública.
No âmbito desta nova abordagem, Moçambique assinou um acordo de cinco anos avaliado em 1,8 mil milhões de dólares, destinado ao apoio dos programas de HIV e malária. Contudo, o valor representa uma redução significativa em comparação ao financiamento anterior dos EUA, que ultrapassava 500 milhões de dólares anuais.
Especialistas alertam que a mudança poderá agravar a vulnerabilidade do sistema de saúde moçambicano, num contexto em que o país enfrenta dívida elevada, crises climáticas frequentes e o impacto do terrorismo em Cabo Delgado.
O director do Observatório Cidadão para Saúde, Jorge Matine, considera que o acordo pode estar ligado aos interesses estratégicos dos Estados Unidos em áreas como gás natural, logística e mineração.
“Este contrato faz parte de uma negociação mais ampla sobre os recursos de Moçambique, especialmente o gás do norte e outros interesses estratégicos”, afirmou.
Analistas internacionais defendem que a velocidade da transição poderá ser perigosa para países altamente dependentes da ajuda externa.
“Três a cinco anos é um período extremamente curto para um país deixar de depender de ajuda externa”, alertou Gavin Yamey, director do Centro de Impacto Político em Saúde Global da Universidade Duke.
Enquanto isso, profissionais de saúde afirmam que os efeitos positivos do novo acordo ainda não são visíveis nas unidades sanitárias.
“Estamos apenas à espera que este novo acordo comece realmente a produzir efeitos”, declarou Manjacaze.
Apesar das dificuldades, o Governo moçambicano ainda não comentou oficialmente as preocupações levantadas por organizações da sociedade civil e especialistas do sector da saúde.
Fonte: Bloomberg
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